// Wednesday, July 1, 2009
Cumulus-nimbus
"Era uma daquelas épocas estranhas na cidade, à qual correspondia - naturalmente - um céu nublado e abafado. Os dias de sol são absolutamente inconseqüentes; enquanto não caíam os pingos (e, na verdade, nem era possível garantir se ou quando eles cairiam - as nuvens que pairavam eram de um tipo concentrado em si mesmo, que por vezes atinge intacto o litoral, para então, docilmente, se desfazer), eu teimava em querer adivinhar, pressentir sinais de mal-estar naquilo que surgia. Números repetidos ao ver as horas. De cada dez mulheres que passavam, uma estava grávida. Um eterno cheiro de cabelo suado resistia nos bancos de ônibus.
Cismei com um mau presságio. Ao meu lado, Renata fumava. Era cedo ainda, e a maior parte dos prédios não acenderia luz alguma até umas seis horas. Já as igrejas tinham se resignado diante da patente escuridão interna, e os vitrais reluziam, difundiam suas lâmpadas amarelas. Transeuntes, muitos. Era divertido considerá-los também como mau presságio, imaginar exatamente o conjunto de pessoas do momento em: um motim, um incêndio, uma ciranda."
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// Saturday, June 6, 2009
2002-so far
Quando eu vi que o Largo dos Aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição
Eu fui morar na Estação da Luz
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração
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// Monday, May 25, 2009
Pathos
"Quando cresci e senti que cresci porque meus ossos doeram, meu desejo profundo era ser bonita a ponto de assustar os homens. Eu não o era - era um bichinho mirrado e a maior parte dos homens que me envolviam era composta tampouco de homens: nada além de protótipos, protótipos impacientes"
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// Sunday, May 24, 2009
El poeta dice la verdad
Quiero llorar mi pena y te lo digo
para que tú me quieras y me llores
en un anochecer de ruiseñores
con un puñal, con besos y contigo.
Quiero matar al único testigo
para el asesinato de mis flores
y convertir mi llanto y mis sudores
en eterno montón de duro trigo.
Que no se acabe nunca la madeja
del te quiero me quieres, siempre ardida
con día, grito, sal y luna vieja:
Que lo que me des y no te pida
será para la muerte, que no deja
ni sombra por la carne estremecida.
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// Friday, May 15, 2009
Sorrisinho insolente
E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale um filho na mão
Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas o seu filho gosta
Você não gosta de mim, mas o seu filho gosta
Ele gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ele pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Ai, esses filhos ;D
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// Saturday, May 9, 2009
A outra volta do parafuso
"Oh, era uma armadilha - não designada, porém profunda - para minha imaginação, minha delicadeza, para minha vaidade, talvez; para o que quer que fosse, em mim, o mais excitável."
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// Wednesday, May 6, 2009
Das Marionettentheater
As marionetes no palco rodopiam, e, à distância, um espectador tem a impressão de que são exímias dançarinas. Mal sabe ele - embora seja uma situação evidente ao se aproximar - que essas mesmas marionetes são capazes de se embolar sozinhas em seus fios de náilon.
As teias às quais se agarram pelas extremidades parecem infinitas, e ainda mais encruzilhadas em meio a tantos nós. (Existiria alguém na platéia paciente e determinado o suficiente para desatá-los? Estariam todas conectadas por um único novelo?) Lá estão os braços de madeira polida, as articulações, os grandes olhos penetrantes: que será desses bonecos? Poderiam eles dançar qualquer ritmo? Ou alguma seqüência de passos (coreografada, rebobinada, totalmente aleatória) seria menos embrenhada?
Lá estão, sob os holofotes. É impossível saber, de cima do palco, se estes estão acesos ou não. Mas lá estão. Entre os assentos e os bastidores. Os pés de acaju ribombam sobre as tábuas do assoalho - daí, talvez, decorra o movimento que ribomba no peito e nos ombros angulosos até os fios de suas cabeças de mogno se eriçarem.
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